quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Viajando com a família


Minhas lembranças de viagens são ativadas por fotografias. Meus pais gostavam de fotografar e minha mãe montava álbuns organizados e bem escritos, com legendas hilárias e criativas. Ela sempre pensou nos três filhos, portanto as fotos eram divididas em três álbuns e as histórias também mudavam de acordo com o filho. Ela me ensinou a gostar tanto de fazer diários, álbuns de fotografia e também o ato de estar sempre filmando e fotografando.
A cada viagem era um filme de 36 poses e tudo ficava registrado. Ou seja, fica a dica pra gente não ficar cansando nossos filhos com milhões de fotos diárias e ainda ficar mandando fazer pose. Quando eu tinha 12 anos, meus pais compraram uma filmadora VHS Panasonic, a maleta era enorme, e a câmera ficava nos ombros, depois de um tempo filmando até machucava. Mãe fazia questão de levar três fitas, uma para cada filho. Assim, filmava um pouco pra cada, e hoje cada um tem a sua, depois de casados, em sua própria casa, como ela planejou.
Além de um talento natural para lembrar, tudo isso que meus pais fizeram ajudam e muito a minha viagem nostálgica às lembranças de como era viajar com os pais e meus irmãos.
Porto Seguro, Cabo Frio, Guarapari eram os lugares favoritos da minha família. Quase sempre viajávamos acompanhados por tios e primos. Meus avós também já foram conosco para a praia, acho que com companhias assim a diversão fica completa.
Não me lembro do filtro solar! Ainda bem que o costume da família era acordar cedo e sair da praia para almoçar. Depois descansar na pousada e à tarde era reservada a passeios, lanches e compras. Mas, lembro bem da sensação de ardência na pele, principalmente nas costas e no rosto.
Na adolescência viajar com os pais virou uma coisa chata, porque eu era a bendita mulher entre irmãos e primos! Não tinha companhia e naquela época só um livro pra te salvar de tanta falta do que fazer. Às vezes, meus primos faziam o favor de jogar um baralho e aí eu até entrava na brincadeira.
Viajar com os pais é tão importante! São memórias que a gente guarda para sempre. A gente normalmente começa a relembrar depois de ter seus próprios filhos, e sem querer, começar a repetir tudo que um dia, seus pais fizeram com você.
O carro merece um capítulo à parte. Ar condicionado era luxo para poucos e meu sonho era ter um Opala Comodoro... carro bem chique para a época. Bancos aveludados, vidros elétricos e escuros e ar condicionado. Viajávamos suados e apertados, numa Marajó lotada, com toalhas nos vidros para tampar o sol e muitos travesseiros para ver se a gente dormia e parava de brigar no bando de trás. Três irmãos juntos por longo tempo e, num curto espaço, tem obrigação moral de brigar.
A mãe fica sendo a juíza mediando assuntos, o pai precisa de tranquilidade para dirigir pela estrada perigosa, o irmão mais velho tem como característica fazer sacanagem com o irmão mais novo e usá-lo para me chatear. Eu era uma mocinha que queria muito conquistar meu irmãozinho. Perdi a batalha para o irmão grandão que o teve sempre a seu lado e o ajudava nos planos mirabolantes. Era como Sancho Pança e seu fiel escudeiro, Dom Quixote.
Voltando à cena dentro do carro da família. Tentava dormir, mas não conseguia e seguia com os olhos flutuantes as nuvens que passavam pelo caminho. Às vezes estava introspectiva e não falava nada, às vezes estava com a língua solta. Isso é adolescência, uma montanha russa de sentimentos.
Semanas antes da viagem de férias, minha mãe começava arrumar as malas e meu pai arrumava o carro. Sempre tínhamos que acordar de madrugada para pegar estrada vazia. Levávamos travesseiros para dormir e mãe fazia sanduíches com pão de forma, presunto e queijo. “As comidas da estrada não são confiáveis.” Dizia ela. Então, nas paradas pedíamos só refrigerante e usávamos o banheiro.
Viajar sete dias com a família não é moleza, não! Mas, faz parte do aprendizado. E todo adolescente deve dar conta de fazer isso, pelo menos uma vez por ano.









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