sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A grande fuga para Nova Era



Depois de ser apresentada para meus primos de Nova Era na Feane de 1990 e ter m

e decepcionado com os meninos de Itabira, eu não me contentava com poucas idas por lá.
Minha mãe era muito brava e controladora.
_”Mãe, quero ir pra Nova Era. Posso ficar na casa de Madalena?”
-“Não.” Ela respondia.
- “Por quê?” Eu insistia.
-“Não, porque não!” Ela respondia, pegando a bolsa e dando aquele assunto por encerrado. Ia apressada trabalhar na Caixa Econômica Federal mostrando que tinha coisas mais importantes para fazer.
Fica a dica para os pais: “Não, porque não!” não é resposta. Adolescentes não merecem esse tipo de conversa. São questionadores e sempre vão até o fim com os planos mirabolantes.
Ok. Meus primos Kiko e Bernardo me ligavam quase todos os dias. Como era bom ter dois primos gatinhos! Minhas amigas todas babavam! Eram meus novos amigos. Tínhamos histórias da infância pra contar, bisavós em comum e muitas fotos antigas a partilhar. Em Nova Era costuma ter uma festa tradicional dos Nova Erenses ausentes e ficou conhecida como Feane. Quando estive na Feane com meus pais fui apresentada a eles. Nunca ia imaginar que no meio daquela festa chata de família eu ia descobrir novos primos. O melhor era que eles eram bonitos, legais e cheios de atitude.
Eu tinha acabado de sofrer uma decepção amorosa. Estava “ficando” há dois meses um rapaz de Itabira. Estava apaixonada com ele, mas ele me traiu. Pensei até que fôssemos namorar. Descobri que ele “ficava” comigo e com mais umas três meninas de bairros diferentes. Ele também arrumou uma “ficante” em Nova Era.
Na Feane tive uma ótima oportunidade de me vingar. Ele estava com uma das namoradas, mas eu estava com uns quatro. Rodei abraçada com todos os gatinhos de Nova Era. Passei por ele e dei umas gargalhadas sem sentido, só pra ele notar minha felicidade. Depois disso não o vi mais, deve ter ido embora.
Kiko me apresentou todos os seus amigos. O mais bonito parecia com um ator americano, Timoth Hutton. Infelizmente estava de rubéola. Mesmo assim não resisti, beijamos muito e eu não fiquei contaminada.
Através de uma conversa por telefone decidimos nos encontrar numa fazenda onde ia rolar uma festa. Uáscar tinha um maverick branco e isso o fazia ser muito foda naquela época. Então, segundo nossos planos, ele iria patrocinar minha fuga. Eu iria falar com minha mãe que dormiria na casa de uma melhor amiga careta que ela confiava muito. Bernardo iria nos encontrar na rodoviária de Itabira. No dia marcado uma chuva forte começou a cair e a estrada entre as duas cidades deveria virar um lamaçal perigoso e escorregadio, pois era de terra. Kiko ligou falando que já estava saindo de Nova Era. Minha barriga gelou! Minha mochila estava pronta. Combinamos de encontrar na rodoviária. Meu primo chegou de lencinho na cabeça e cigarro na boca. Naquela época era difícil achar um menino de Nova Era que não fumava cigarro. Maconha nem existia pra gente. Era uma coisa de televisão e eu até achava que a gente cheirava maconha. Então, ficávamos no “loló” e na cerveja.
Lá vamos nós, pela estrada afora. Loucura total, o carro derrapava pelos barrancos e nós três não estávamos nem um pouco preocupados. O carro antes branco ficou marrom e parecia uma sauna de tanta fumaça. Chegando à fazenda encontrei os outros amigos e as primas dos amigos. Elas não eram tão loucas como eu e só ficavam rindo de tudo.
Estávamos felizes fabricando o loló e fazendo churrasco. De repente alguém avisa que Madalena estava chegando com Inácio de carro para me procurar. “Mas, como?” Pensei. Não é possível que minha amiga tinha dado com a língua nos dentes! Tharic conhecia tudo na região da fazenda e se ofereceu para me esconder. Joguei o loló fora para não ter mais provas de crime contra mim e saí correndo pelo mato. Lembro-me de ficar escondida numa fábrica e o novo amigo me acalmando. Muita chuva naquela época, férias de dezembro e eu achando que ia ficar escondida ali até o outro dia. Escutamos o carro ir embora e pronto, viva, podíamos sair do esconderijo. Voltamos para o churrasco e eu fiquei toda feliz por conseguir ludibriar meus parentes. Não é que de repente eles voltam e me pegam no pulão???
Acabou minha festa. Voltei escoltada. Madalena passou a noite conversando comigo. Pelo menos ela tem psicologia e eu até entendi a preocupação que minha mãe deve ter passado. Mas, ela mereceu! Não tinha jeito pra conversar e falava de forma bruta comigo: “Não porque não.” “Eu que pago, eu que mando.”
Merecido foi meu castigo de um mês sem sair de casa. Nem no réveillon no Clube Atlético Itabirano eu pude ir. Passei o ano novo de preto, toda revoltada. Assim começou minha fase “dark”.


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