O primeiro beijo
O primeiro beijo aconteceu dia 6 de janeiro de 1989, eu tinha 13 anos e 6 meses e entrara
na sétima série.
Estava na casa da minha avó com uma amiga de Belo
Horizonte. Ela estava armando tudo para rolar meu primeiro beijo. Nessas horas o
que mais faz falta é uma amiga mais “saidinha”.
Estava com medo, minha barriga doía, meu estômago
embrulhava, afinal, meu pretendente me esperava no clube, que ficava bem
próximo de onde estávamos. Minha amiga me encorajava e me empurrava para ir
junto com ela. Eu falei que estava com cólica, mas ela nem ligou. “Vamos, agora
é hora de você dar seu primeiro beijo.”
Na minha agenda não tem descrições de tudo o que
aconteceu. Eu não escrevia porque tinha vergonha de alguém pegar e ler. Mas,
uma coisa eu escrevi: “Não conseguia parar de tremer. Smack.” E desenhei um
beijo.
O garoto tinha acabado de se mudar para a cidade, ele
morava em Vitória e tinha apelido de Surfista. Quando chegamos ao clube ele
veio conversar, depois segurou minha mão (quase morri de vergonha) e me levou
para uma sala de sinuca.
Ele se aproximou do meu corpo e lascou um beijo na minha
boca. Eu fiquei tensa, fechei os olhos e pensei numa cena de beijo de novela.
Escolhi o Fábio Júnior para ser meu galã e me deixei levar. De repente, o garoto
enfiou a língua na minha boca cheia de dentes e aparelho. Ai, que nojento! Onde
está a câmera lenta e a trilha sonora das novelas? O beijo não foi romântico,
foi realista. Eu tentei retribuir aquela língua, mas não consegui, ela não
conseguia se mexer. Cada vez que me lembrava do aparelho minhas mãos suavam
mais.
Aquilo não durou muito tempo. Falei que já era hora de
voltar e saí correndo pra casa da minha avó. Depois minha amiga foi me procurar
e ficou rindo da minha cara. Não quis compartilhar nem com minha avó e nem com
minha mãe. Eu pensei que elas não fossem gostar porque não era namorado, era
apenas um garoto que fez um favor de me dar um beijo de língua para que eu não
fosse mais boca virgem. Eu só queria aprender a beijar.
Neste dia escrevi na minha agenda um texto copiado à
exaustão em todas as agendas da época. Isso já era compartilhar, só não existia
internet e nem “facebook”.
“Beijo é a mistura de línguas dançando rock em um
festival de cuspe.”
Depois eu mesma escrevi: ECO!

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