Eu era uma
boa aluna.
Nas minhas
agendas estão registradas a minha rotina de estudo e deveres. Meus pais me
ajudavam apenas no horário de levantar cedo. Que vida dura a de estudante!
Acordar às seis da manhã é o pior dos castigos. Por isso, chegava da escola,
almoçava e dormia até às três da tarde. Quem nunca assistiu à sessão da tarde
não foi feliz na adolescência! Depois de comer pão com margarina e leite com
achocolatado, ia estudar.
Na verdade,
estudava poucas horas por dia. Com 13 anos e 6 meses comecei a me interessar por
outras coisas. Queria sair com amigas, paquerar, passear no clube e ir ao
cinema.
Mas, existe
uma formalidade, pontos a cumprir, metas a chegar. Eu não queria ficar em
recuperação em nenhuma matéria e muito menos tomar “bomba”. Eu também fazia
cursinho de inglês e minha mãe dizia que custava caro. Meus pais sempre me
disseram que estudar era minha única obrigação. Estavam certos!
Durante o
ano a escola oferecia várias atividades. Uma delas é a Feira de Ciências. Foi
uma decepção nos dois anos anteriores com o resultado do nosso grupo, que
escolhia temas nem um pouco interessantes: camada de ozônio e legislação de trânsito.
Decidi mudar o foco, queria revolucionar. Nosso grupo era sempre com as mesmas
pessoas, por isso todas queriam mudança.
Numa dessas
reuniões de grupo, na casa das minhas amigas gêmeas, estava ansiosa para contar
a ideia mirabolante que explodia na minha cabeça. Eu maquinei tudo na minha
casa, na noite anterior, quando minha mãe me deu um livro de presente.
Ela disse:
- Comprei um livro para você aprender sobre
seu corpo e sobre as transformações que está vivendo. Minha mãe nunca falou
comigo sobre isso e muito menos meu pai. Eu também não sei falar sobe sexo.
O título do
livro era Sexo para adolescentes, da Marta Suplicy. Era isso que eu precisava.
Todos da minha idade querem aprender sobre sexo e isso é pesquisa científica.
Difícil será convencer minhas amigas, elas podem ficar com vergonha de falar
tão abertamente sobre esse assunto. Depois desse “clic” fiquei sem dormir,
sabia que era uma ideia genial.
Voltando
para a reunião de grupo... Nós rimos muito ao relembrarmos de nossas apresentações
fracassadas. Afinal, por que escolhemos os temas “Camada de ozônio”? Pelo menos
é mais interessante que “Legislação de trânsito”! Por que fizemos uma pesquisa
científica sem ao menos nos interessar pelo tema?
Na hora em que
nos sentamos à mesa da cozinha para comermos biscoito maisena e suco tang eu
pedi pra falar. Fiz todo aquele teatro e minhas mãos não pararam de gesticular:
Eu: -
Meninas, esse ano nós vamos ganhar.
Todas: Cara
de surpresa.
Eu: - Eu
tenho certeza. Vamos comemorar?
Cara de “como
assim”.
Eu: - Chega
de salas vazias! Nossas apresentações serão as mais prestigiadas. Nossa sala
ficara lotada. Sabem por quê?
Olhava para
as minhas amigas como seu fosse um político querendo o voto delas. Duas me
olhavam sérias, uma já começava a rir e a outra estava sem paciência.
-Por quê? Todas
me perguntaram para que eu pudesse enfim desembuchar e livra-las daquele
espetáculo.
Eu respondi
em tom de naturalidade: - Vamos falar de sexo.
Elas riram e
se entreolharam. Pegaram o livro que joguei na mesa e começaram a analisar o
material. Elas empolgaram com a ideia e selamos nosso negócio com abraços de
vitória garantida.
Foi a melhor
Feira de Ciências da nossa vida. A pesquisa era empolgante e o melhor era poder
compartilhar esse conhecimento com nossos colegas e toda escola. Minhas colegas
não se envergonharam, já demonstravam serem boas profissionais desde cedo. Os
professores ficaram encantados, afinal, existem questões morais e religiosas
que os impedem de falar sobre sexo até hoje com seus alunos.
Nosso grupo
ganhou primeiro lugar na Feira de Ciências de 1989 e 1990. Sexo é um assunto que
dá ibope, e eu queria a fama, o sucesso. Fomos até em Viçosa, apresentar nosso
trabalho. Lá aconteceu um fato interessante: um gatinho universitário veio me
perguntar o que era sexo oral. E eu fazendo cara de inteligente, mas sem
experiência de vida nenhuma. No meu livro não tinha nada falando sobre isso.
Minha explicação foi tecnicamente ao pé da letra. Respondi:
-Quando o
parceiro excita sua parceira ou vice versa com palavras sensuais.
Todos riram
de mim, fiquei sem saber. Minha colega se esquivou, só faltou entrar debaixo da
mesa. O gatinho percebeu que ficamos mortas de vergonha e saiu rindo.
O livro da
Marta Suplicy falava de transformações no corpo, espinhas, crescimento dos
seios, polução noturna, e terminava com a relação sexual. Esse foi o primeiro
ano de trabalho, eu era tão novinha que foi difícil comprar uma camisinha na
farmácia. Durante a apresentação eu mostrava a camisinha e também como colocar
no pênis. Não tive como disfarçar as mãos trêmulas. Os meninos amavam essa
parte. No ano seguinte falamos da gravidez ao parto, os nove meses de gestação
e o crescimento do bebê. Mas, não falamos sobre posições sexuais, isso era mais
para os experientes. Lembrando que na época não existia internet, as pesquisas
eram feitas na biblioteca.
Sexo e
adolescência tem tudo haver. Assunto que deveria ser discutido todos os dias,
sem preconceito.
Sexo é
ciência!

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