domingo, 16 de fevereiro de 2014

Sexo para adolescentes

Eu era uma boa aluna.
Nas minhas agendas estão registradas a minha rotina de estudo e deveres. Meus pais me ajudavam apenas no horário de levantar cedo. Que vida dura a de estudante! Acordar às seis da manhã é o pior dos castigos. Por isso, chegava da escola, almoçava e dormia até às três da tarde. Quem nunca assistiu à sessão da tarde não foi feliz na adolescência! Depois de comer pão com margarina e leite com achocolatado, ia estudar.
Na verdade, estudava poucas horas por dia. Com 13 anos e 6 meses comecei a me interessar por outras coisas. Queria sair com amigas, paquerar, passear no clube e ir ao cinema.
Mas, existe uma formalidade, pontos a cumprir, metas a chegar. Eu não queria ficar em recuperação em nenhuma matéria e muito menos tomar “bomba”. Eu também fazia cursinho de inglês e minha mãe dizia que custava caro. Meus pais sempre me disseram que estudar era minha única obrigação. Estavam certos!
Durante o ano a escola oferecia várias atividades. Uma delas é a Feira de Ciências. Foi uma decepção nos dois anos anteriores com o resultado do nosso grupo, que escolhia temas nem um pouco interessantes: camada de ozônio e legislação de trânsito. Decidi mudar o foco, queria revolucionar. Nosso grupo era sempre com as mesmas pessoas, por isso todas queriam mudança.
Numa dessas reuniões de grupo, na casa das minhas amigas gêmeas, estava ansiosa para contar a ideia mirabolante que explodia na minha cabeça. Eu maquinei tudo na minha casa, na noite anterior, quando minha mãe me deu um livro de presente.
Ela disse:
 - Comprei um livro para você aprender sobre seu corpo e sobre as transformações que está vivendo. Minha mãe nunca falou comigo sobre isso e muito menos meu pai. Eu também não sei falar sobe sexo.
O título do livro era Sexo para adolescentes, da Marta Suplicy. Era isso que eu precisava. Todos da minha idade querem aprender sobre sexo e isso é pesquisa científica. Difícil será convencer minhas amigas, elas podem ficar com vergonha de falar tão abertamente sobre esse assunto. Depois desse “clic” fiquei sem dormir, sabia que era uma ideia genial.
Voltando para a reunião de grupo... Nós rimos muito ao relembrarmos de nossas apresentações fracassadas. Afinal, por que escolhemos os temas “Camada de ozônio”? Pelo menos é mais interessante que “Legislação de trânsito”! Por que fizemos uma pesquisa científica sem ao menos nos interessar pelo tema?
Na hora em que nos sentamos à mesa da cozinha para comermos biscoito maisena e suco tang eu pedi pra falar. Fiz todo aquele teatro e minhas mãos não pararam de gesticular:
Eu: - Meninas, esse ano nós vamos ganhar.
Todas: Cara de surpresa.
Eu: - Eu tenho certeza. Vamos comemorar?
Cara de “como assim”.
Eu: - Chega de salas vazias! Nossas apresentações serão as mais prestigiadas. Nossa sala ficara lotada. Sabem por quê?
Olhava para as minhas amigas como seu fosse um político querendo o voto delas. Duas me olhavam sérias, uma já começava a rir e a outra estava sem paciência.
-Por quê? Todas me perguntaram para que eu pudesse enfim desembuchar e livra-las daquele espetáculo.
Eu respondi em tom de naturalidade: - Vamos falar de sexo.
Elas riram e se entreolharam. Pegaram o livro que joguei na mesa e começaram a analisar o material. Elas empolgaram com a ideia e selamos nosso negócio com abraços de vitória garantida.
Foi a melhor Feira de Ciências da nossa vida. A pesquisa era empolgante e o melhor era poder compartilhar esse conhecimento com nossos colegas e toda escola. Minhas colegas não se envergonharam, já demonstravam serem boas profissionais desde cedo. Os professores ficaram encantados, afinal, existem questões morais e religiosas que os impedem de falar sobre sexo até hoje com seus alunos.
Nosso grupo ganhou primeiro lugar na Feira de Ciências de 1989 e 1990. Sexo é um assunto que dá ibope, e eu queria a fama, o sucesso. Fomos até em Viçosa, apresentar nosso trabalho. Lá aconteceu um fato interessante: um gatinho universitário veio me perguntar o que era sexo oral. E eu fazendo cara de inteligente, mas sem experiência de vida nenhuma. No meu livro não tinha nada falando sobre isso. Minha explicação foi tecnicamente ao pé da letra. Respondi:
-Quando o parceiro excita sua parceira ou vice versa com palavras sensuais.
Todos riram de mim, fiquei sem saber. Minha colega se esquivou, só faltou entrar debaixo da mesa. O gatinho percebeu que ficamos mortas de vergonha e saiu rindo.
O livro da Marta Suplicy falava de transformações no corpo, espinhas, crescimento dos seios, polução noturna, e terminava com a relação sexual. Esse foi o primeiro ano de trabalho, eu era tão novinha que foi difícil comprar uma camisinha na farmácia. Durante a apresentação eu mostrava a camisinha e também como colocar no pênis. Não tive como disfarçar as mãos trêmulas. Os meninos amavam essa parte. No ano seguinte falamos da gravidez ao parto, os nove meses de gestação e o crescimento do bebê. Mas, não falamos sobre posições sexuais, isso era mais para os experientes. Lembrando que na época não existia internet, as pesquisas eram feitas na biblioteca.
Sexo e adolescência tem tudo haver. Assunto que deveria ser discutido todos os dias, sem preconceito.
Sexo é ciência!
 
 
 
 
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário