segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Show de cartas


 

Eu gosto de cinema e música e também de programas de televisão.

Quando criança era o Programa Balão Mágico, depois veio o da Xuxa, da Mara Maravilha e da Angélica.

Uma das partes mais legais desses programas infantis era o sorteio de cartas. Era muita carta que essas apresentadoras recebiam. O correio deve ter ficado rico... A Xuxa sentava em cima de um monte de cartas e a montanha crescia a cada semana. As pessoas escreviam pedindo brinquedos e elogiando a apresentadora sempre linda, jovem e magra.

Na hora do sorteio a diva dos baixinhos jogava várias cartas para cima criando uma bonita chuva de cartas. Ficávamos na expectativa de vermos pela TV nossa cartinha voando pelos ares indo paras nas mãos da moça bonita e gostosa (com uma saia minúscula).  Para fazer nossa carta se destacar colocava envelopes coloridos e adesivos brilhantes. Já fiz de tudo, mas nunca fui sorteada.

A maior montanha de cartas que já vi na minha vida foi a do programa Viva a Noite, do Gugu Liberato, e o quadro era Sonho Maluco. Acho que era 1986, teve um sorteio para conhecer os garotos do grupo Menudo. O apresentador escalava a montanha com microfone na mão.  Subiram mais umas cinco ajudantes para jogar as cartas para cima.

Em 1990 o programa Sonho Maluco repetiu a proeza da montanha de cartas. Fãs desesperadas como eu queriam conhecer os integrantes do grupo New Kids On The Block, que entrou no vácuo do Menudo, depois que eles já estavam em baixa repercussão. Saíram os porta-riquenhos e entraram os americanos. O dia do sorteio coincidiu com o aniversário de 15 anos de uma amiga, no sábado exatamente à meia noite. A aniversariante dançava valsa quando eu saí de fininho procurando uma televisão. Para minha infelicidade a única televisão da casa ficava na sala de visitas e tinham várias outras pessoas lá. Possivelmente eu vi minha carta voar pelos ares. Era um envelope pardo bem grande, escrito com letras azuis gigantes. Comecei a tremer e a chorar com a visível chance de ser sorteada. No final, o apresentador pegou outra carta. Eu descontrolei. Chorei de soluçar e minhas amigas vieram ver o que estava acontecendo. A essa altura as pessoas já estava rindo de mim, daquela atitude de fã histérica. E exatamente por isso eu chorava cada vez mais, de vergonha e decepção.

Enfim, divaguei tanto sobre os programas e seus sorteios para dizer que sempre foi meu sonho maluco estar ali, sentada na montanha de cartas e jogando todas pra cima. Imagino que deva ser uma sensação deliciosa.

Mas, para quê ficar só na imaginação? Mais que depressa criei uma brincadeira super legal: o Show de cartas.

Eu e minhas primas providenciamos papel, lápis e canetinhas e começamos a escrever dezenas de cartas. Éramos bastante criativas, pois a cada carta assumíamos uma nova identidade e fazia pedidos diferentes.

A apresentadora (no caso eu ou uma prima) comentava a carta com microfone na mão e olhando para uma filmadora imaginária. Obviamente nosso programa seria como o da Tv e falávamos com o expectador. Tipo assim:

Apresentadora lendo a carta: “Eu me chamo Rafael e moro em São Paulo. Gosto muito de você e queria ganhar uma bicicleta.”

Apresentadora olha para câmera e fala: “Oi Rafa, tudo bem? Um beijão para todos de São Paulo. Vamos mandar sua bicicleta para o endereço que está no remetente. Um super beijo pra você sua família!”

Sentíamos o poder de ser uma artista da Tv, e também o sabor do sucesso. A cada férias, o bolo de cartas aumentava.

Todas as primas adoravam essa brincadeira. Era mesmo delicioso jogar todas as cartas para cima, levantar as mãos, fechar os olhos e pegar apenas uma.

Oh, que surpresa! Não nos fazíamos de rogadas, mesmo nós mesmas tendo escritos as cartas, a surpresa era certa.

Uma coisa que estou pensando aqui. Esse negócio de entregar presentes nas casas das pessoas, isso existiu mesmo ou apenas no meu show de cartas?

Sinto muito pelas novas crianças que não irão presenciar o prazer de abrir uma carta, muito menos de estar numa montanha delas. O show de cartas era sensacional, inesquecível.


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