terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O grande fora





Fiquei por muito tempo tentando explicar para meu príncipe loiro o que aconteceu. Que tinham planejado uma enrascada pra mim, tudo para nos separar. Eu realmente não tinha ficado com o outro carinha. Mas, cidade do interior e a mente pequena dos adolescentes não contribuíram para minha sentença final. Ele chegou até a ficar comigo algumas vezes, mas escondido. Deu pra perceber que ele gostava de mim, ele não resistia, mas a fofoca da sociedade falava mais alto. O que os outros poderiam pensar dele se o visse comigo, que ele era um corno manso.
Nosso beijo era perfeito. Delicioso com gosto de bala de cereja. Lembro-me do cheiro do perfume dele até hoje. Era pra ter sido um namoro gostoso, com química e muitos apertos por aí. Mas, um invejoso veio nos detonar e estragou nossos sonhos.
Depois de tentar convencê-lo a acreditar em mim, e por vezes ele tentou, fui golpeada por outra facada da vida. Tudo tem troco. Aprendi sobre essa máxima a duras penas.
Meu príncipe loiro ficou com outra. Ele precisava dar o troco que a sociedade cobra. Apesar de eu nem ter traído, merecia o troco de um chifre trocado, que faz doer menos.
Meu príncipe loiro, mesmo ainda gostando de mim, fez o que todos queriam. Ficou com uma menina na frente de todos, destruíndo meus sonhos de reconciliação.
Nunca me esquecerei desse dia, era um dia de junho, estava tendo futebol no clube da cidade e chovia muito. Estava cheio de gente e eu o chamei pra conversar ali mesmo. Depois disso percebi que foi um erro, porque ali não era lugar e nem era momento. Perguntei de forma afobada:
“É verdade que você ficou com a fulana?”
Ele respondeu que sim. Nessa hora comecei a tremer e percebi que não deveria estar conversando na frente de todos. Já comecei a querer chorar e gritar. Eu fiquei brava e ela primeira vez demonstrei que sou ciumenta e possessiva. Falei com aquele tom de voz de mulher discutindo relação com o marido:
-“Vai ter que decidir! Com qual das duas vai ficar? Se está pensando que vai ficar com as duas está muito enganado. “
Ai, meu Deus. Que burrice! Eu fiz tudo errado. Pressionei demais e escutei o que não queria e nem merecia. Ele respondeu:
-“Então eu vou ficar com a fulana.”
Claro que ele queria se vingar. Aquilo era um troco. Mas, eu nem fiquei com outro, foi tudo armação de meninos bobos da cidade que disputam poder entre si. Quem tem o carro melhor, quem pega mais menina, quem briga melhor, quem dá o melhor “cavalo de pau”.
Ele deve ter sofrido quando todos riam dele porque eu entrei no fusca branco enquanto só deveria andar na Brasília azul. Eu só entrei no carro, dei uma volta a pedido do suposto amigo porque ele me alegou que queria pedir conselhos e depois a cidade toda estava falando de mim. Por isso eu aviso minha sobrinha Júlia para não cair no papinho desses meninos bobos de 14, 15, 16 anos. Idade não importa, importa a cabeça desses rapazes, que ao meu ver estão cada dia pior. Mas, eu não beijei o cara, ele quis me beijar e eu não deixei.
Naquele momento que conversava com meu príncipe loiro eu pensava que o amor venceria, mas a sociedade da fofoca venceu. Todas as pessoas que estava naquele clube para assistir ao futebol ficaram invisíveis pra mim. O barulho ensurdecedor da partida de futebol e da torcida se calou. Eu estava chorando devagar e precisava sair correndo dali pra começar a abrir o berreiro entalado na garganta.
Saí sem pensar na chuvarada lá fora. Deixei o ginásio com as pernas bambas. Ainda bem que não caí pelas escadarias do clube, senão seria mil vezes pior. Minhas lágrimas se misturavam com a chuva.
Eu gostei daquela torrente de emoções. Parecia um clipe de música lenta e eu caprichei no roteiro.
Corri pelas ruas chorando e me escondia das pessoas.
Por que isso tinha que acontecer comigo? O que seria de mim agora, naquela cidade onde pessoas cruéis só querem me detonar? Será que era inveja?
Eu nasci acreditando que todos têm bom coração. Por isso sofro amargamente a cada decepção. A gente não nasce sabendo. Penso que é importante compartilhar essas experiências com meninas de coração puro como eu.

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